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Trabalhar com filmes preto-e-branco, em câmeras de grande formato construídas há quase 100 anos, pode parecer atitude ultrapassada, de gente que não acompanha a evolução tecnológica em que vivemos. Não no caso de César Barreto. Há mais de 30 anos na estrada, consagrado tanto como laboratorista quanto como fotógrafo, ele se diz encantado com as possibilidades do sistema digital, que lhe abriu inclusive as portas da fotografia em cor. "Os recursos são quase infinitos e quem se dispuser a dominá-los vai, com certeza, ter diversão garantida pelas próximas décadas", acredita.
O entusiasmo, no entanto, não chega ao ponto de fazê-lo deixar de lado as queridas – e, diga-se de passagem, belíssimas – caixas de madeira, das quais saem obras-primas como as que vemos nestas páginas. Afinal de contas, ele batalha pela qualidade da fotografia, conceito que crê ameaçado pelo imediatismo digital. Sua concessão aos pixels se resume aos scanners, o que lhe garante, ainda, a preservação de sua obra. "Não tenho coragem de passar minha produção e minhas memórias para um HD", afirma. Essas e outras opiniões deste craque e estudioso da fotografia estão na entrevista concedida à Photo Magazine.
Como surgiu seu interesse pela fotografia? E como, depois disso, ela virou uma profissão?
Assim como tantos, comecei na fotografia distraidamente e, quando me dei conta, já estava mergulhado até o pescoço, quase sem chances de retorno. Tudo começou em 1975, quando conheci o laboratório de um colega, cujo pai era amador. De cara me interessei e resolvi fazer o curso básico da Sociedade Fluminense de Fotografia. Eu tinha que cumprir pelo menos 12 horas de laboratório, mas acabei batendo em 40 horas, o que dá uma idéia do meu envolvimento com a coisa. Até passei no vestibular, mas não custou muito a perceber que fotografia era muito mais divertido do que sociologia... Consegui uma vaga de assistente num pequeno estúdio em Niterói, que tinha ótimos equipamentos. Assim, fui apresentado à Hasselblad, Sinar, Durst, Broncolor, Schneider, Rodenstock, Gossen, ou seja, a todos os nomes sagrados da fotografia clássica. Eu mesmo havia começado com uma "leicazinha" IIIF e, na época, tinha apenas uma Nikkormat, mas o gosto por bons equipamentos nunca mais me largou.
Você começou fotografando, mas seu trabalho como laboratorista logo ganhou destaque. Como isso aconteceu?
Fiz praticamente de tudo um pouco no começo da carreira, mas, aos poucos, o laboratório foi dominando a cena, pois outros fotógrafos descobriam esse meu lado obscuro e passaram a contar comigo para tudo, desde revelar filmes até fazer ampliações para exposições. Esse rumo me abria uma possibilidade bem interessante, já que não corria atrás de trabalho, ele vinha bater na minha porta. Muito cômodo e bem adequado, pois minha vocação para aturar estresses de produção, modelos, diretores de arte e outros problemas com os quais fotógrafos têm que lidar era mínima.
Por quê?
Sempre fui lento no que faço e isto não é muito bem-visto no cenário da fotografia profissional cotidiana. Mas, já no laboratório, o tempo era meu, trabalhava o quanto e quando queria, podia exercer o grau de perfeccionismo que me desse na telha e ainda aproveitava para aprender muito, não só quanto às técnicas de impressão, mas também vendo como cada fotógrafo lidava com determinada situação e se tinha ou não sucesso em suas tentativas. Foi um período de desenvolvimento de uma noção bem plantada de como utilizar o espaço gráfico bidimensional de uma fotografia. Além disso, o hábito de ler negativos me fez perceber melhor a luz, sua interação com a ótica e as emulsões, o que contribuiu em muito para minha evolução como fotógrafo.
Mas acabou voltando a fotografar profissionalmente...
Depois de mais de 10 anos dedicado ao laboratório, trabalhando para muitos dos grandes nomes da fotografia brasileira, percebi que naquele ramo tinha pouco mais a aprender ou esperar. Decidi, então, voltar a atuar como fotógrafo. Mas as áreas de publicidade, indústria ou, pior ainda, moda e retrato me pareciam completamente inviáveis e tomei o rumo do setor cultural, principalmente na reprodução de arte e documentos históricos. É um segmento essencialmente técnico e quase nada criativo, mas que se encaixa bem com meus humores e rigores fotográficos...
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