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Com as minas em foco
Pouco abaixo do solo, existe uma arma cruel à espreita, ameaçando diariamente a vida de milhões de inocentes: a mina antipessoal
Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá

Quando estávamos na África, durante o projeto que resultou nas exposições e livro Angola - A esperança de um povo, no caos após 27 anos de guerra civil, nos deparamos pela primeira vez com a problemática de minas terrestres e suas milhares de vítimas. Mais tarde, a situação se repetiria no conflito entre Índia e Paquistão, quando cobrimos o trabalho das entidades humanitárias e os movimentos separatistas na Caxemira. Mas foi de volta à América Latina, em finais de 2004, em meio a um documentário sobre violência urbana na Colômbia, que, surpresos, ouvimos as informações de que o país tinha um dos mais altos índices de acidentes e incidentes com minas no planeta.

 

Pesquisamos a região e descobrimos que Peru, Chile, Argentina, Venezuela, Equador, El Salvador, Nicarágua e Guatemala enfrentam problemas com minas em diferentes graus. Era a hora de iniciar um novo trabalho de fotografia documental e assim nasceu o projeto Na Mira das Minas, sobre a utilização dessas armas na América Latina. No final de 2005, voltamos à Colômbia e vimos que a situação das minas no país se degradava ainda mais rapidamente com a evolução do conflito. De fato, no último dia 4 de abril, escolhido pelas Nações Unidas como Dia Internacional da Consciência sobre as Minas Terrestres, a ONG Landmine Monitor divulgou que a Colômbia acabava de assumir a posição de território com maior número de acidentes com minas em todo o mundo, com a terrível cifra de 1.060 explosões com vítimas em 2005. Nesse país em guerra aberta, visitamos três estados e conhecemos centenas de vítimas, civis e militares; homens e mulheres; crianças, adultos e idosos.

 

Em um ambiente com tantos mutilados, viúvas e órfãos, nosso foco principal passou rapidamente do simples retrato da dura realidade para a dignidade das pessoas por trás das histórias. E não é fácil fotografar a desgraça sem cair no piegas, e nem queríamos abusar das imagens plásticas sem levar em conta a miséria humana. Além disso, há toda a tensão no ar nas estradas vigiadas e campos militares, a possibilidade sempre presente de ataques e os constantes cenários de hospitais e centros de recuperação entre as nossas lentes e os objetivos do projeto. Por outro lado, a coragem com que as vítimas encaram sua situação e o trabalho duro das entidades, como a ONG Campanha Colombiana Contra as Minas e a Unicef, permitiram um contato mais direto com as pessoas envolvidas e um enquadramento mais humano do problema.

 

O próximo passo do projeto foi visitar o Peru, que minou suas fronteiras com o Equador durante o último conflito entre os dois países em 1995 e onde uma estratégia militar, para proteger torres de alta tensão de ataques do Sendero Luminoso nos anos 1990, criou mais de 1.700 campos minados. Como as minas que permanecem na fronteira em geral estão em locais de difícil acesso, são as remanescentes nas torres que ameaçam mais os cidadãos. Mal-treinados e equipados, 80% dos próprios policiais que plantaram as minas tornaram-se vítimas desses artefatos explosivos. E além deles, também centenas de adultos e crianças inocentes que buscavam sucata, brincadeiras infantis ou simplesmente passavam perto das torres. Novamente o apoio de entidades como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o Centro Peruano de Ação Contra as Minas Antipessoal (Contraminas) e a Associação de Vítimas de Campos Minados (Aviscam), foi fundamental para termos acesso tanto aos feridos como às ações que a Polícia Nacional e o governo estão realizando para desminar totalmente o país.

 

Agora, estamos buscando o financiamento necessário para completar os objetivos do projeto Na Mira das Minas, que prevê a publicação de um livro em português, espanhol e inglês, um vídeo e exposições de fotos no Brasil e exterior. Os custos de viagens, equipamentos e processamento das imagens foram bastante elevados e as parcerias até aqui ajudaram basicamente nos contatos, e não nos gastos financeiros, apesar do claro retorno institucional. Uma primeira exposição com fotos da Colômbia, por exemplo, já foi realizada durante o Fórum Social Mundial em janeiro na Venezuela. Dez fotos do projeto fazem parte da mostra itinerante de documentários sobre a América Latina da Associação PróDocumentários de Albacete, na Espanha, iniciada em 21 de abril. Uma exposição mais completa, com o lançamento do livro, tem data marcada para outubro no Centro Cultural do Ministério das Relações Exteriores do Peru, em Lima. E matérias nossas sobre o tema estão sendo publicadas em importantes veículos e sites no Brasil e no exterior. Mais informações podem ser conseguidas em nosso site: http://mediaquatro.sites.uol.com.br.